Depois de muitas cobranças

"Mas como pode você não ter um blog?", "Sei lá", dizia eu, tentando achar uma resposta mais criativa para justificar o fato de não possuir um. "Mas cara, você é jornalista". E os questionamentos seguiam, como num interrogatório surreal, saído de alguma novela abobalhada sobre o rapaz rico que se apaixona pela mocinha pobre e estranha. E como escovando os dentes para ir em uma festa que eu não queria, resolvi sentar de frente ao computador e tentar criar o tal blog. Meu Deus, quanta coisa a gente faz pra agradar estranhos.

Ser jornalista e não ter um blog é o mesmo que ser gay e não curtir Lionel Richard. “Hello, is it me you're looking for?”. Não, não estou procurando nada e você pode muito bem ver isso em meus olhos. “É simples”, disse a garota de decote generoso que não lembro o nome, “basta você escolher um tema, moda, política, música ou até putaria”. Taí, parece que a garota tem razão, acho que eu ia gostar de fazer um blog de putaria. Não sei como algumas pessoas conseguem viver sem putaria. Mas é putaria das boas e não essas fuleragens que a gente encontra por aí.

Putaria da boa faz a vida ser mais leve, mais tranqüila, bem diferente de “banheiros fantasmas” e dinheiro na cueca. Mas ainda tem gente que faz bastante confusão. Sabe aquele tipo de sujeito que está dirigindo seu carro e ao cair num buraco, no meio da estrada, grita bem alto, “é foda!”, pois é, esse cara não entende nada de putaria. Usar putaria como ofensa é uma tremenda de uma sacanagem. “Tomar no cu” ou “se fuder” são meras sugestões de deleite, não servem para desagradar o próximo, mesmo sabendo que há quem não goste, mas isso, ainda bem, é só questão de tempo.

“Ninguém perderá seu tempo lendo somente putaria”, disse o namorado da garota de decote generoso que, infelizmente, não recordo o nome. E mesmo achando que o carinha tinha mau hálito, concordei com ele, afinal de contas, sou jornalista e, apesar de  querer muito, não posso escrever apenas sobre putaria. Depois de muitas cobranças, decidi que era hora lançar o blog, sem tema definido, lema ou carta de princípios, apenas um blog, pra falar qualquer putaria que eu queira ou publicar receitas de caipirinhas estilizadas. Sabe-se lá o quão duro pode ser um dia.

Leônidas Macêdo.